sábado, 25 de maio de 2013

I - Passante

Caminhos de Ouro Preto,
  paralelepípedos pontudos e soltos.

  Coração bate forte,  pelos arrepiam.
Saudade  de não sei onde,
 reminiscências de mineiro errante,
 sentimentos inculcados... recalcados.  

 Ao passar pela ponte dos suspiros,
 Dorothéia, a Marília, entreabriu a janela,
os cabelos negros e dentes alvos mostrou.

 Dentro desta imagem,
 Gonzaga, o Dirceu, da janela,
no alto da ladeira, sua amada observava.

 Descansando de seu rebanho pastorear.


Adalto Paceli


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Jornal que repe...rcute

O âncora apresenta as manchetes e chama um longo comercial, na volta coloca três repórteres na tela e anunciam três daquelas notícias do início. Dentro de pouco tempo, inserções de propaganda dentro do jornal, ao término destas o âncora chama novo intervalo.
No "2º bloco" um ou dois daqueles repórteres voltam com as mesmas notícias, acrescentando uma ou duas palavras dizendo que logo voltam para "repercutir". Então, entram as reclamações dos munícipes: buracos, falta d'água ... Outra inserção comercial, detalhe, um dos próprios repórteres a faz. Geralmente remédios.
Terceiro bloco, dois daqueles voltam para apresentarem as mesmas notícias acrescentando duas ou três palavras. E vêm mais inserções de propaganda e reclamações de munícipes. O âncora também fica o tempo todo repetindo as mesmas notícias, denominando isto de repercutir.
Então chamam alguém, que dizem ser especialista, para comentar as manchetes, tome mais repercussão. Estes especialistas são geralmente os mesmos e, via de regra, criticam o poder público. Em seguida, a previsão do tempo, que é dada com alegria e ênfase despropositada, aliás, a maioria dos jornais televisivos trata o boletim meteorológico como se fosse a coisa mais importante do mundo e fazem caras e bocas para apresentá-los.
Enfim, retomando o Simão da Folha, tucanaram a repetição, agora é repercussão. A única parte interessante é a inteligência de um economista famoso e culto que faz comentários profundos e instigantes, exceção feita, será que podemos chamar a isto de jornal?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Texto incompleto ... envie sua pérola que acrescento

Já dizia o saudoso Chacrinha "Quem não se comunica, se estrumbica", pois o importante na comunicação é que ela seja entendida, para isto não é preciso sobressaltar a norma de prestígio nem as variantes linguísticas, todas têm sua importância, dependendo das circunstâncias de grupos, lugar, momento, escrita ou oralidade, dentre outras.
No entanto, algumas expressões são engraçadas e nos causam uma certa estranheza ao ouvi-las e depois ajudam a aliviar as tensões do dia a dia. Aí vão algumas:
. Abri o jornal e lá estava a foto estancada!
. O prédio ficou imundado.
. Sou muito tenente a Deus.
. O oculista delatou minha pupila.
. Que coisa mais antiga, isto é do tempo do Zagalo.
. Certa vez, uma prima e amiga de minha mãe disse pra ela: "Maria, o Maramba virou bate!" Tratava-se de um clube que diziam estar ficando 'mal frequentado'. Na verdade, ela queria dizer "Maria, o Umuarama virou boate.'
. Não gosto de palavras de baixo escalão.
- Vai ter greve? Então vamos ter paralisia?
-Adoro uva paz!
- Levantei-me depressa e quase tive uma virtude.
- O Varti só quer usar aquela camisa berge!
- Leve seus documentos, se por uma aventura um guarda te parar ...
- Bete mora na casa há muitos anos, já virou usou campeão.
_ Você acredita que o Sérgio teve a cachorra de contar nosso segredo para a Célia?


...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Cartas - depoimentos - divagações

Sair do anonimato é uma necessidade básica, todos querem ser vistos, reparados e considerados e ninguém quer passar pela vida sem deixar uma marca, um sentimento no coração de alguém, uma ideia inteligente que desperte no outro algum interesse. Tudo isto porque somos seres afetivos, precismos dar e receber calor humano, somos seres inteligentes e queremos que, de alguma forma, nosso raciocínio interaja com outro e que nossa inteligência brilhe nele.
Pois bem, tudo isto percebemos em nossos alunos. Quando falam, querem ser ouvidos; quando escrevem, querem ser lidos; quando reclamam, querem ser notados,  são como todos os seres humanos. Assim, promover o diálogo, a interação, a leitura, o riso, o desabafo, o silêncio ... parece tarefa simples, mas para aquele professor que está de corpo e alma na sala, não o é, pois exige esforço, acuidade, amorosidade e conhecimento.

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Um destes momentos é quando escrevem, querem que aquilo seja lido, pois demandou debruçar-se sobre, desnudar-se algumas vezes, silenciar-se num mundo ruidoso. Então lemos, afixamos na sala e, caso permitam, publicamos aqui. As cartas e autobigrafias que você lê abaixo são exemplos disto, um texto que me comoveu foi o da aluna Mayara do noturno, moça pacata e ingênua que se vê assustada com a perspectiva de ser mãe, o que já aconteceu recentemente.
Tivemos um aluno notável no noturno, o Sr. Roque, homem de elevada distinção e elegância no trato com todos. Hoje, ele está concluindo o Ensino Médio na E.E. Pedreira de Freitas, aqui perto do nosso Cemei. Numa determinada atividade de escrita, ele nos apresentou um belo texto, fizemos algumas sugestões de reparos ortográficos e gramaticais, mas de antemão, já avaliamos a qualidade de seu texto. Pois bem, enviamos sua redação para o Jornal A Tribuna, que tem uma bela parceria com as escolas públicas municipais de Ribeirão Preto.
Para nossa alegria, risos, o Sr. Roque não só teve sua história publicada, como também foi homenageado pelo Jornal numa cerimônia pública à qual comparecemos com grande satisfação. Mais uma vez, parabéns, Sr. Roque. E a todos os alunos que escrevem e nos confiam seus texto, nosso muito obrigado.
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Somos impacientes e ansiosos, infelizmente, queremos ver no semblante dos que nos ouvem uma resposta, ainda que mínima, talvez um mover de lábios, um arregalar de olhos, ou seja, um simples sinal de que estão acompanhando nosso raciocínio. Mas isto nem smpre acontece, muitas vezes, nos olham com cara de paisagem e é difícil controlar nossa decepção.
Há pouco tempo, li em sala um dos mais belos contos que conheço " A moça tecelã", de Marina Colasanti. Fiz uma leitura quase que dramatizada e ao terminá-la nem uma expressão diferente, parecia que eu tinha passado um teoria sobre substantivos. Com um nó na garganta, passei para a atividade de compreensão do texto que o livro propunha.
Aprendemos há   algum tempo que isto se chama idiossincrasia, que a maneira com que cada um recebe uma mensagem é pessoal. Aí entra nossa ansiedade, que é o querer "comandar" a maneira como o outro recebe o que falamos. Exercício difícil, pode acreditar, é este para o professor, pois nossa ânsia para que o outro cresça, assimile é tanta que até esquecemos a interessante frase de Paulo Freire "A educação é um fruto que o professor não come"
Um abraço,
Adalto Paceli

sábado, 13 de abril de 2013

Cartas imaginárias


                                                       Ribeirão Preto 02/04/13

João Paulo,

E aí, tudo bem? Espero que sim. Comigo vai tudo bem, estou escrevendo para lhe contar como são as aulas aqui no Cemei. São muito boas, estou aprendendo muito com os professores, apesar de alguns alunos atrapalharem as últimas aulas.
Decidi voltar a estudar  porque hoje  eu vejo que não somos nada sem os estudos, como é difícil sem o estudo arrumar emprego. Gosto muito das aulas de ciências, geografia e história, não muito de matemática, porque nunca  me dei bem em matemática, espero que você  seja  melhor  do que eu .
Pretendo me formar daqui a alguns anos em algo que envolva o desenho, sou desenhista e é o que mais gosto de fazer . Às vezes sento e fico na prancheta até virando a noite nos desenhos .
Bem, João Paulo, vou ficando  por aqui, espero que você me retorne um dia.

Cara, fique com Deus!


                                                                                                                           Gabriel de Lima

segunda-feira, 8 de abril de 2013

MINHA VIDA

Eu, Mayara  de Oliveira, Nasci em Ribeirão Preto
 e vou  contar minha  historia.
Tenho  17 anos.  Já perdi  minha  mãe,
 tenho só meu  pai e  minha  vida tem sido  difícil,
pois    vou  ser mamãe.
No começo, eu pensei  que seria fácil,
mas acho que me enganei, pois já sofri demais.
Hoje, quero dar  para o meu filho 
todo amor do mundo, 
espero  que com  as  graças de  Deus  eu consiga.
Vou  dar  toda  educação e
 lutar pra dar um futuro melhor a ele e
espero ser  muito  feliz , com  minha  família ,
quero ter forças pra continuar lutando,
 pois agora já não estou mais sozinha ,
está chegando um anjinho
enviado por Deus para me trazer  alegria.
Vou terminar meus estudos,
pois só assim posso ter certeza
que conseguirei dar pro meu filho
tudo que não tive quando era criança!

domingo, 7 de abril de 2013

ESCREVENDO MINHA HISTÓRIA



MEU NOME É DIEGO BARIZON,
MORO NA FAZENDA,
EU ESTOU VOLTANDO PARA A ESCOLA
 PARA APRENDER MAIS
 E  TER UM  FUTURO  MELHOR,
 PARA  SABER  DAS  COISAS.

FAZER CURSOS DE COMPUTADOR, FACULDADE
 E AJUDAR MEUS PAIS, MINHA IRMÃ E MEUS PARENTES.
UM DIA QUERO CASAR, TER FILHOS E AJUDÁ-LOS.
 BOM, FAZER DE TUDO UM POUCO.

 E ISSO SE DEUS AJUDAR E TUDO DER CERTO.
PRETENDO TIRAR MINHA HABILITAÇÃO
PARA ANDAR SEGURO NA CIDADE.

ISTO É UM POUCO DA MINHA HISTORIA
QUE AINDA ESTÁ SENDO ESCRITA.

Minha história




Oi, meu nome é Samara Barizon, tenho 23 anos, nasci na cidade de Ribeirão Preto. Então vou contar um pouco da minha infância, gostava muito de andar a cavalo, mas  a minha infância não foi muito boa, porque meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos, sofri muito com isso. Quando completei quinze anos, fiquei grávida e tive que parar de estudar  para casar.  Fiquei casada durante oito anos.
Hoje, moro em uma fazenda com meu pai e minha filha,  só agora que  pude vir à escola, porque  fiquei afastada durante onze anos  e só agora percebi  o quanto ela faz falta  para arrumar um serviço bom.
Agora decidi voltar pra  correr atrás de tudo que perdi e quero  poder  fazer   faculdade  de engenheira agrônoma  porque trabalho nessa  área, pois quero poder  dar um futuro bom pra minha filha e mostrar pra ela que a escola hoje é tudo. Gosto bastante de estudar  e pode ter certeza que vou fazer o impossível pro meu sonho se realizar.
 Então é isso, vou sempre em frente, acreditando em Deus. 

domingo, 31 de março de 2013

Feliciano grita e mídia sussurra



Que as declarações e posicionamentos do Deputado Federal Feliciano são ilegítimos não há o que discutir, e que colocá-lo à frente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara  é absurdo, é outra verdade inconteste. Exigimos sua saída!
Agora, é preciso refletir que a mídia em geral e, em especial a tevê, alegando liberdade humorística, vêm utilizando como produto deste “humor” as minorias. Repare nos negros representados por brancos caricaturados, nos homossexuais representados com exagerados trejeitos e vocabulário, na mulher com dificuldades para entender, nos anões e gigantes infantilizados, dentre outros.
A revista Caros Amigos trouxe esclarecedora reportagem com o título Piada sem graça, que trata justamente deste pretenso humor à custa das minorias, e que infelizmente, por ser de fácil assimilação dá grande retorno de audiência para as emissoras de televisão.
A grita geral pela renúncia ou retirada, por parte do PSC, do Deputado Feliciano da referida Comissão deve continuar, pois ele permanece firme no cargo e  gostando de toda esta polêmica, pois isto alimenta seu ego e o reforça como "baluarte da moral e dos bons costumes", rendendo-lhe votos dos fundamentalistas religiosos e falsos moralistas. 
Enquanto isto, o deputado grita pontualmente e a mídia "sussurra" constantemente em nossos ouvidos seus preconceitos, amplamente defendidos na sociedade, inclusive pelos que se dizem religiosos.
Portanto, combater o preconceito que atinge as minorias, patrocinado por grandes empresas e propagado por grandes redes que receberam suas concessões do governo é tarefa árdua a exigir cidadania de cada um de nós. Cidadania que provém da boa educação de berço, da formação escolar e das justas instituições públicas ou privadas.
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Rádio Usp - Esquenta - Tribuna

Há tempos não sintonizava a Rádio Usp de Ribeirão Preto, pois estavam testando um novo sistema de Internet para a difusão do sinal. O Geraldo, um colega professor de matemática, vem continuamente elogiando esta rádio e eu pensava comigo "um dia desses preciso sintonizá-la". Fiz isto a semana passada, que maravilha! Realmente, não está mais saindo do ar e com uma programação pra ninguém botar defeito.
Sábado último, por exemplo, ouvi no  programa À beira da palavra -14h às 15 h, uma entrevista com um escritor negro. Ele falava de suas obras, do perigo da simbologia das palavras, do racismo inconsciente que nosso vocabulário traz. Lembrou algo muito singelo, a musiquinha de ninar "Boi, Boi, Boi, Boi da cara preta, pega esta menina que tem medo de careta" e cantou diferente "Boi, Boi, Boi, Boi da cara branca, pega esta menina que tem medo de carranca". Achei genial, nem sei se isto é daquele autor, mas foi bem colocado. Por que cara preta e não cara branca?
Assisto tevê pontualmente, tenho minhas preferências, uma delas é o programa de entrevistas "Provocações" com o Abujanra, outra é o Jornal das 18h com a Leilane, mas domingo último ligue na vênus prateada e lá estava a Regina Casé com o "Esquenta", já tinha assistido um pouquinho no domingo anterior e tinha gostado. Quem vejo no tudo junto e misturado? O grande Caetano Veloso interagindo com todos, sem preconceitos, cantando tudo que aparecia, sabia até alguns ritmos que a mim não agradam nem um pouco, mas aprendi faz tempo que o mundo não é feito sob encomenda. No final, A Regina leu um trecho que resumidamente dizia que as pessoas não se tocam mais, os relacionamentos são curtos e de pouca intensidade porque as pessoas não se deixam conhecer e conclui assim: vemos alguém e dizemos "um abraço", encontramos outra pessoa e dizemos "um beijo", mas não há, de verdade, nem beijos e nem abraços. Chocou-me ver o encontro dos dois papas e alguém da tevê a dizer que eles estavam se abraçando calorosamente, nem sequer se tocaram!
Tive o prazer de acompanhar um aluno do Ensino noturno de jovens e adultos ao Jornal A Tribuna, ele foi receber um prêmio pelo texto que escreveu em sala de aula e que enviei para o jornal com o fito de ser publicado. Que felicidade estampava o Sr. Roque ao receber o certificado e ser fotografado! Todos que escrevem, exceto nos diários, é claro,  querem que seus textos sejam lidos. Nestes momento eu me orgulho da minha profissão, de poder ajudar de alguma maneira no processo de leitura e escrita com autonomia. O texto dele está aqui neste blog "Quem casa quer casa".
Grande abraço ( risos ) a todos!
Adalto Paceli

sábado, 23 de março de 2013

Saudades da Minha Terra



Eu, Antenor  Rosa da Silva, venho através desta falar um pouquinho da minha historia. Nasci no dia 26 de agosto de 1975, numa cidade chamada Iturama no estado de Minas Gerais. Ali cresci e fui muito feliz por longos 14 anos.

Lembro-me da capelinha onde o padre rezava a missa todos os domingos, era um grande evento, o mais esperado da semana, pois todos nós levávamos uma merenda, uns levavam bolo, outros biscoitos, doces, sucos e até refrigerante o que era uma novidade, pois pouquíssimas casas da zona rural tinham energia elétrica, enfim, éramos muito felizes, eu, minha mãe Sebastiana, meu pai José e meu padrinho Zezão , que sempre morou com a gente.

Meus irmãos a esta altura já não moravam mais em casa, o mais velho, Nivaldo morava no estado de São Paulo, minha irmã do meio tinha se casado, então éramos só  nos quatro. Ate que um dia, por falta de opção, por não ter um trabalho fixo, onde pudesse tirar meu sustento, tive que sair de casa e vir morar na cidade grande, lembro que minha mãe falava  “olha, cuidado com as companhias, não fica na rua até tarde, obedece seu irmão, ele vai poder te orientar melhor”.

O tempo foi passando, fui ficando mais velho e passei a entender melhor a vida. Às vezes eu me perguntava por que o destino nos separa das pessoas que mais amamos. Hoje eu entendo que isso acontece para nos tornarmos seres humanos menos egoístas, menos arrogantes e um pouco mais humildes. Sábias palavras de dona Sebastiana Ribeiro da Silva, que sempre me fez trilhar o caminho do bem, é por isso que hoje estou aqui me considerando um vencedor, pelo menos no jogo da vida tenho vencido todas as batalhas e por isso posso afirmar que a família é a base de tudo.

Espero poder passar adiante todo amor e carinho que recebi dos meus pais, o  que me fez ser o homem que sou hoje aprendendo um pouco mais a cada dia com a mesma humildade de sempre. 

5ª Eja - Escola Municipal Eduardo Romualdo de Souza

sábado, 9 de março de 2013

Travessuras


Eu insisto em cantar
Diferente do que ouvi

Seja como for recomeçar

Nada há, mas há de vir
Me disseram que sonhar
Era ingênuo, e daí?

Nossa geração não quer sonhar

Pois que sonhe, a que há de vir

Eu preciso é te provar

que ainda sou o mesmo menino

Que não dorme a planejar travessuras

E fez do som da tua risada um hino.

Me disseram que sonhar

Era ingênuo, e daí?

Nossa geração não quer sonhar

Pois que sonhe, a que há de vir

Eu preciso é te provar

que ainda sou o mesmo menino

Que não dorme a planejar travessuras
E fez do som da tua risada
um hino

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Noites na Taberna - Álvares de Azevedo

Comecei a ler este livro de contos e impressionou-me a força e o frescor da narrativa, gostaria de compartilhar com vocês o conto abaixo.
Abraço,
Adalto.


II
SOLFIERI
...Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm — my heart! my heart!
Cain. Byron

— Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença!
— Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se fazias ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. — A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão...
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite...
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. . — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem cabeça e o homem sem coração" como a conta Brantôme? — Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou…
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta .
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
— Que levas aí?
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
— É minha mulher que vai desmaiada...
— Uma mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
— É uma defunta...
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda.
— Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço.
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto, e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...
— Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
— E quem era essa mulher, Solfieri?
— Quem era? seu nome?
— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
— Solfieri, não é um conto isso tudo?
— Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
—Vede-la murcha e seca como o crânio dela

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quase também é um detalhe

     Ontem, no caminho de volta para casa a pé, passei por um bar que tocava Detalhes do Roberto Carlos, gostei muito, evocou antigas recordações das Minas Gerais, pessoas, lugares e momentos. Parecia que até o cheiro das lembranças estava no ar. No trecho que ouvi, ele cantava quase que à capela, num ritmo monótono e suave ao mesmo tempo e como o som estava alto, aquela música acompanhou-me por um bom tempo.
     Não foi só melancolia, o vocabulário é do meu tempo de menino, "...se um outro cabeludo aparecer na sua rua.." Lembro-me que meu irmão mais velho sofreu com papai pegando no seu pé devido aos longos cabelos que ele cultivava com desvelo.
     Desta lembrança a outras foi um pulo. A primeira paixão que eu via e revia ao andar em círculo na pracinha de São Benedito em Passos enquanto ouvia Abba cantando Fernando. A prima morena de olhos verdes e mortiços que me enfeitiçaram numa reunião do Grupo de Jovens da Igreja Católica em que eu era o presidente e perdi o raciocínio no meio de minha fala. Minhas malas prontas e a cabeça cheia de sonhos ao sair da minha terra para morar em Sacramento. O sim assustado, olhando para as janelas da igreja com vontade de fugir...
    Quando a música ficou inaudível, esses e outros momentos gritavam dentro de mim, o jeito foi, ao entrar em casa, cantar. Cantar Detalhes, Travessia, Coração de Estudante, Mamma. Pois quem canta os amigos espanta. Estes me desculpem, afinal, são tantas emoções!

Adalto Paceli

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Rato gosta de queijo, gato gosta de leite. E você?


O filme O palhaço escapou-me no cinema, quando pude, já não estava mais em cartaz. Via fragmentos na tevê e aos poucos desinteressei-me. Estes dias, para minha sorte, peguei-o no início e pude, enfim, assisti-lo. 
A princípio, não me prendeu, não conseguia entender a tristeza mórbida do palhaço filho, mas, aos poucos, entrei na narrativa e, devagar, como gosto que as coisas aconteçam, comecei a entender o cerne da trama.
Precisamos descobrir o que nos move e nos deixa felizes, o rato gosta de queijo, o gato gosta de leite.
E você, do que é  que você gosta?
No mais, fico por aqui, caso queira saber mais assista ao filme. Ah! Mais uma coisa, você viu Central do Brasil? Singelo e belo, concorda? O Palhaço também é assim.
Abraço,
Adalto

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ainda falando sobre leituras...


     Tendo lido O Coruja, comecei Alice no país dos espelhos, legal aquele mundo paralelo da menina, eu que não consigo, às vezes, sair do prumo, que quero tudo linear, direitinho, sem poeira e penso que a vida é feita sob encomenda fiquei, a princípio, meio deslocado na leitura, mas logo entrei com tudo na viagem e agora estou super interessado.
     Alice me fez companhia neste estranhamento, ela que fica namorado o mundo refletido no espelho, ao entrar nele demorou um pouco para se familiarizar. Agora, eu leitor, fico tentando entender o que o autor está querendo dizer sem dizer ou dizendo diferente. Gostei muito do poema que a personagem Tweedlendee declama sob os protestos da garota, pensei nas fatalidades do dia-a-dia, na cultura do menos pior é o melhor possível. Caso você leia, diga pra mim qual foi sua impressão sobre esta poesia.
     E quanto à "Literatura infantil", ela existe? O que poderíamos entender por livros para criança? Quando leio com meus alunos O pequeno príncipe, A volta ao mundo em 80 dias, As aventuras de Tom Sawyer, dentre outros que grande parte dos leitores chamam de literatura infantil, deparo-me com certos trechos que já li outras vezes e que, naquele momento, chamam minha atenção por um outro prisma. Ou ainda, percebo que ainda não havia entendido aquela passagem. Enriqueço meu vocabulário, agrego valores daquela leitura ao meu mundo mental.
     Como poderia chamar esta literatura de infantil? Não, eu não posso porque o que existe é literatura, ou é, ou não é. Agora, livros para criança existem, são aqueles em que elas podem colorir ou completar, com um material especial que elas podem levar para a banheira, com aroma, dentre outros.
     Percebo, enfim, que muitos livros são colocados de lado porque muitos acham que estão fora de moda e que a criança, o adolescente ou o jovem não vão gostar. Bobagem, embarcando nesta onda estamos é reforçando o consumismo para rechear os cofres das grandes editoras. Por exemplo, Açúcar amargo e Um soco no estômago do escritor Luiz Puntel, numa primeira olhada muitos tendem a descartá-los, mas são sucessos de leitura compartilhada em sala de aula.
Literatura é literatura e ponto final!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Leitura, grande companheira

Terminei de ler O diário de Anne Frank, demorei um pouco, não é o tipo de leitura de flui, algumas vezes tive que voltar na leitura para entender ou aprofundar melhor alguns trechos e em outras tratava-se de futilidades do cotidiano da protagonista, no geral, gostei muito do livro,  isto fica claro quando fico refletindo depois.
Impressionou-me sobremaneira a clareza da narrativa de Anne  sobre sua personalidade, seus gostos e preferências, em especial, sua relação com a mãe, conflituosa e fria ao mesmo tempo. Outro fato digno de nota é a voracidade da menina nas leituras, maravilhou-me a quantidade e a variedade de livros que lia e o entusiasmo com que falava dos livros que lia à sua fictícia destinatária , a Kitty.
Sei que tudo isto seria pano de fundo e que o foco da narrativa deveria ser o horror das perseguições, do antissemitismo, da barbárie substituindo a cidadania, o estarem 8 pessoas escondidas em uma casa por mais de dois anos e, quase ao final da provação, serem delatados e quase todos mortos nos campos de concentração, entendo que tudo isto é importante, mas para mim, o interessante ficou nas entrelinhas, do dito sem dizer. Coisas de leitor esquisito.
Estou terminando O Coruja, de Aluísio Azevedo, tive que reconsiderar a boa impressão que seu início me provocou, aliada aos comentários da contracapa, pois ao avançar na leitura percebi incoerências, tive que ler trechos desinteressantes, André, o Coruja, que, a julgar pelo início e pelo título deveria ser a protagonista foi aos poucos perdendo espaço para Teobaldo, seu amigo, que, de personalidade dúbia chegou ao final do romance como personagem central. Considerando, porém o todo do livro, valeu a pena ler. Traz informações e alguns comentários que nos ajudam a ajuizar um pouco como foi a sociedade do século XIX.
Leitor ou leitora deste humilde blog, ler é o melhor remédio!
Abraço,
Professor Adalto Paceli

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

     Nóis fingimo que fumos e vortemos

     Pensaram que eu não voltaria mais? Pois é, na vida temos momentos de aridez, de secura extrema, vemos nosso gado morrer, as plantas murcharem e dizemos "É o fim!"; mas as chuvas voltam, as plantas reflorescem e nosso gado volta a pastar alegremente e voltamos a acreditar na vida.
     Não é bem sobre isto que quero falar, quero lhes contar sobre o livro que estou lendo. Aqueles literatos que, se você pergunta sobre determinado livro, dizem estou relendo, rirão da minha leitura, não faz mal, prefiro a sinceridade.
    Pois bem, estou lendo "O diário de Anne Frank". Passei muitas vezes para meus alunos assistirem "Escritores da Libertade", um filme que traz a história de Anne Frank à tona e eu tenho algumas dúvidas, daí a leitura.
    Até o momento estou gostando, para quem não sabe, Anne é uma garota judia que passa mais de dois anos escondida com sua família dos nazistas. Vai aí a dica. Caso leia, envie sua opinião para mim.
    Abraço,
    Adalto.

domingo, 9 de setembro de 2012

Quando aprofundo a conquista da fama


     Quando aprofundo a conquista da fama dos heróis e as vitórias dos grandes generais,
não invejo os generais ou o Presidente em sua Presidência ou o ricaço em sua casa enorme;
mas quando ouço falar da fraternidade entre dois amantes, do que se passou entre eles, de como juntos através da vida, através do perigo, do ódio, sem mudança por longo e longo tempo atravessando a juventude e a meia-idade e a velhice, como sem vacilações, como leais e afeiçoados se conservaram, aí fico pensativo - saio de perto afobado com a mais amarga inveja.

Walt Whitman in Folhas de Relva

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Contigo

    

     Desconhecido, se passando me encontrares e desejares falar-me, por que não me hás de falar?
     E eu, por que não haveria de falar contigo?

     Walt Whitman in Folhas de Relva