terça-feira, 13 de maio de 2014

Os Ombros Suportam o Mundo

Os Ombros Suportam o Mundo



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

 Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Visitas

Desceram o morro,
Visitaram o asfalto.

Um deles:
_ Trabalhem mais!
O outro:
_ Ai, que cansaço.

Subiram o morro,
Descansam no barraco.

Adalto Paceli

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Leitura em Sala



Uma vez por semana temos uma aula especial, de leitura compartilhada em sala. Reunimo-nos em um grande "círculo" e lemos um livro juntos. Quem estiver com vontade lê em voz alta numa ordem pré estabelecida, caso contrário, acompanha a leitura atentamente no livro distribuído para duplas de alunos.  Na próxima rodada, aquele que não leu poderá fazê-lo, se quiser. Desse modo já lemos muitos livros. Em 2012, pedi para os alunos escreverem o que quisessem sobre um desses livros e olhando meus arquivos achei um dos depoimentos, que segue logo abaixo:

As Aventuras de Tom Sawyer escrito por Mark Twain é uma das melhores historias feitas até hoje.
Ela envolve ação, aventura, romance, e um pouco de tristeza, eu gostei muito da parte em que eles vão ao cemitério e veem os bandidos desenterrando o cadáver para o cientista.
Também gostei da parte que Tom leva a culpa no lugar de seu amor Back Tatcher.
A parte que eles vão pra ilha Jackson e nadam e depois querem aprender a fumar cachimbo com o Hulk, essa história é interessante porque ela conta a história de 3 garotos, um era rico e o outro era pobre e morava na rua, pena que a historia acabou.

Tá aí professor, demorei mais eu enviei!

Pablo Henrique Aguilar 8ª B - 2012



Linguagem e gírias de alguns grupos de jovens

Os alunos dos 8ºs da manhã do Cemei pesquisaram , montaram e apresentaram estes trabalhados que foram expostos na sala de aula.
Parabéns!

sábado, 29 de março de 2014

Alunos artistas

O desenho abaixo ficou afixado em minha sala de aula por algum tempo e antes de devolvê-lo ao Gustavo pedi para expô-lo aqui, pois gostei muito do visual e da criatividade. É rotina os alunos deixarem comigo suas criações artísticas  para que sejam expostas na sala de aula, na maioria da vezes num painel.
Parabéns, Gustavo!

domingo, 23 de março de 2014

Bela cena -



É verdade! Não costumo assistir a novelas. Digo assim porque tem muita gente que é fã de carteirinha e, no entanto, se alguém pergunta, nega que assiste de pés juntos. Não é o meu caso, mas confesso que fico zapeando e nos comerciais vejo algo aqui , algo acolá. Dia desses parei numa cena da novela "Em família", contracenavam as atrizes Júlia Lemmertz e Vanessa Gerbelli e o conflito era uma joia valiosíssima que sumira da casa da primeira e que a personagem Juliana ( Vanessa Gerbelli ) havia furtado. Depois desse preâmbulo, vamos ao que quero comentar. Não consegui mudar de canal, o diálogo me prendeu, a personagem Helena envolveu a ladra com tanto carinho e compreensão, olhando-a nos olhos e com voz meiga e terna discorreu um texto repleto de amorosidade, fazendo com que a outra se derramasse em pranto e devolvesse imediatamente a tal joia roubada. São momentos como esse que nos dão orgulho de ser brasileiros. Outros momentos? Vamos lá: Bibi Ferreira  interpretando Piaf, Ivan Lins e  Ângela Maria  no palco do teatro Pedro II, Elis com Tom Jobim cantando Águas de Março, Fafá de Belém cantando o Hino Nacional quando da morte de Tancredo Neves, dentre outros. É claro que se deve guardar as devidas proporções, mas gostaria de dar uma simples opinião, as belas coisas da vida podem estar nos lugares menos esperados e que o preconceito e o elitismo podem nos impedir de ver ou ouvir essas belezas. 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Procurando emprego

Quem assiste aos telejornais deve ter ouvido várias vezes que há muito emprego disponível, mas falta mão de obra qualificada. Um senão deve ser colocado, querem mão de obra qualificada remunerada com um salário desqualificado e contrato de trabalho que passa longe das leis trabalhistas. 
Que tal, por exemplo, trabalhar numa imobiliária famosa em Ribeirão Preto para contatar possíveis compradores de imóveis por telefone e ter comissão nas vendas? Parece ótimo, não? Só dois detalhes: caso você não consiga vender no mês todo, cumprindo jornada de trabalho, com uma hora e meia de almoço, sabe o que acontece? Você nada recebe. Isso mesmo! Nem um tostão, o transporte, a refeição, sua roupa lavada e passada correm tudo por sua conta. 
Ah! Eles dão treinamento de 3 dias, caso  seja aprovado fica na empresa, naquelas condições, mas se  não passa, eles só falam "tchau". Por falar em treinamento, a moda em várias empresas, depois dos primeiros contatos, é convidá-lo para o tal treinamento, caso você aceite já fica avisado que, se ao final deste treinamento, você ou eles não se interessar, não há pagamento pelos dias que você passou em "treinamento", Adeus foi feito pra se dizer, lembrando Guilherme Arantes. 
Agora, a média salarial para pretendentes com Ensino Fundamental ou Médio é de mil reais, pagam um pouco mais se o trabalhador se dispuser a trabalhar num horário flexível. Detalhe, flexível para eles. Hoje ele trabalha a partir das 14h00 e no final do expediente, o chefe chega e avisa " Amanhã você entra às 10h00. Aí dá pra tirar uns mil e duzentos reais brutos. Para conseguir uma dessas maravilhas, mande seu currículo, aguarde um contato, passe por uma entrevista e aguarde para o treinamento, pois pasmem, a fila dos interessados é grande. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

As pupilas do senhor reitor

Li por estes dias o romance As pupilas do Senhor Reitor, do escritor português Júlio Dinis, uma história singela e agradável. Margarida, a Guida, nos é apresentada no início como uma simples cuidadora de cabras que passa os dias solitária no campo, mas que começa a ter a companhia de Daniel, um garoto bem nascido, que suspira por ela e vai vê-la escondido. A trama se desenvolve sem muitas surpresas e o final é antevisto bem antes de ser narrado.
O autor se utiliza do narrador para fazer suas intervenções, que são muito interessantes, mostra-se com muito bom senso, pitadas de ironia e humor acerca dos moradores da pequena aldeia portuguesa e se dirige muitas vezes ao leitor, lembrando neste aspecto em muito, mas com menos profundidade, Machado de Assis.
As pupilas do Senhor Reitor foi adaptado para a tevê pelo SBT em 1995, não assisti, mas é possível ver algumas cenas pelo youtube. O melhor, no entanto, é ler o livro, que você encontra bem baratinho em um sebo. No final. até os nada românticos ficam torcendo por um final feliz.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O cântico da terra




Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
 
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
 
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
 
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
 
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
 
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.
 
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Cora Coralina
 (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP. Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Convivência...Vera Duarte... Tiradentes

Conviver, viver com alguém, com poucos ou muitos, subentende calar-se quando se tem algo a dizer, não dizê-lo por pesar a situação e ver que o momento pede silêncio. Não agir em situações que exigem ação, mas esta significaria rompimento ou complicação maior.
Na convivência há pontos de vista, personalidades se encontrando. Há um outro com ou sem estrutura para
certos aspectos da vida. Há um eu consigo falar e um você que não consegue ouvir.
Estar ou viver só tem suas alegrias e tristezas, mas pode cristalizar um eu exacerbado. Conviver é dividir, exige plasticidade. O que é o certo, o melhor? 
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Mastigo muito a leitura antes de engoli-la, o que me impede de ler muito. Comentei sobre o livro A palavra e os dias da escritora cabo-verdiana Vera Duarte há algum tempo, mas só por estes dias  terminei de lê-lo e confesso, estava com dó de deixar o livro. Impressionou-me sua elegante escrita e algumas belas formas de se expressar no nosso belo idioma. Discorreu sobre família, livros, pátria, amigos, infância e outros caros temas. Escreve como quem fala. É objetiva sem deixar de ser terna. Demonstra conhecimento sem arrogância. Observe este trecho em que Vera retrata o grande poeta de Cabo Verde Amílcar Cabral " Mas houve outras realidades objetivas que não chegou a ver. Por exemplo, as flores de Quitáfine. Porque, sabes, também há flores: só não tivemos tempo de tas is mostrar..."
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Nasci circunstancialmente numa cidadezinha paulista e alguns meses depois já estava em Minas. Cresci em meio a manifestações culturais, Folia de Reis, Cavalhada, Congada... Andava livre pela cidade e arredores, criança e adolescente livre a nadar nos córregos, apanhando frutas nos pés e com uma turma de amigos brincando em frente de casa. Isso e muito mais, lembranças que adormecem e que de vez em quando alguém ou algo vem me chacoalhar e as desperta. Meu último despertador foi uma viagem recente a Tiradentes, meu intento maior era ver as igrejas e monumentos históricos, mas fiquei fascinado com a rotina da cidade. As ruas com carroças, cavaleiros, as vielas, a tranquilidade. O passeio de charrete, a curta viagem até São João Del Rei de maria-fumaça. Os cães por toda parte, soltos e respeitados. Ah, em São João Del Rei visitei o Memorial Tancredo Neves. Fiquei arrepiado, aquele ambiente impõe respeito. Fotos, vídeos, slides, objetos expostos em algumas salas, bem organizados, revelam e relembram o grande homem que foi Tancredo Neves, um político que visava ao bem comum. Político com P maiúsculo, um estadista. O que teria sido  do Brasil se no sistema parlamentarista o tivessem deixado governar como primeiro-ministro de Jango? Outra indagação, esta mais profunda: Eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, se tivesse cumprido seu mandato em vez de José Sarney?
Enfim, revi Minas, revi a mim mesmo.
Adalto Paceli
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Animais em campo

Assunto pisado e repisado que deixei dormindo para melhor refletir, a extrema selvageria no jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, uma cena definiu para mim o âmago de tudo: um rapaz sendo puxado e espancado tentando sair fora do raio de ação de seus agressores. Sabe aqueles programas sobre animais ferozes rondando e escolhendo a presa mais frágil para isolá-la do bando para depois atacá-la sozinha e a abater? Então, houve alguma diferença entre essa cena e aquela do estádio? No ato em si, não! Na intenção ou motivo sim. Aqueles matam para se alimentarem, esses agridem apenas para libertarem a fera contida que neles reside.
Ouso pensar que violências assim originam no berço e na formação que as crianças, jovens e adolescentes recebem. As conversas que ouvem; o comportamento dos adultos que os tutelam; a tecnologia - excesso de celulares, faces e tal -; a televisão sem medida e toda a porcaria nela contida; algumas categorias esportivas - mma, futebol animal, dentro e fora do campo ( inclusive na cabine e nas câmeras ).
Algumas sugestões: Pegar o filho no colo; acompanhá-lo nas lições escolares; limitar seu tempo de tevê; videogame; internet; incentivá-lo a brincar de carrinho, amarrar um barbante e sair puxando imitando o barulho do motor e a filha a pentear sua boneca; deixá-lo brincar com as crianças do condomínio ou da rua (deixar e não abandonar).
Enfim, faltam amor, presença e envolvimento dos adultos responsáveis. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos precisam de crianças, adolescentes, jovens , adultos e idosos e não, somente, de coisas.
Você talvez diga, não fechou o texto. Concordo, pois não voltei aos animais do futebol. Fiz de propósito, pelo menos no texto não perpetuo esse círculo vicioso.
Adalto Paceli

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O VIGIA


 
no fosso do elevador
no quarto de despejo
no armário embutido
a noite eterna espreita

pelas frestas, o vulto
sob a luz inventada:
é preciso vigiar
as coisas que se furtam

nunca mostram a face
mesmo quando sugerem
como as sandálias
sob a janela aberta -

com o branco dos olhos
vigiar a escuridão
que sustém luz e coisas
e o nada atrás da porta -

não permitir a fuga
ou a invasão: mas vem
a fome e a noite salta
da lata de biscoitos

vem o sono e debaixo
da cama ninguém sabe
(como dentro dos sonhos)
o que, na sombra, se oculta

e nas gavetas vazias
no poço atrás dos olhos
baratas, pensamentos
sem veneno, deslizam

 "O Vigia" faz parte da coletânea "O Corpo no Escuro", primeiro livro do poeta e livreiro na USP Paulo Nunes. O volume será publicado em fevereiro pela Companhia das Letras.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Juó Bananère - Ditadura Militar - Espinho - Mia Couto

O poema postado logo abaixo é de Juó Bananère, por mim desconhecido até ontem, foi sugerido por uma colega, pois estávamos conversando sobre poesia e eu havia dito que um dos meus poemas preferidos é Nel mezzo del camin de Olavo Bilac. Então ela sugeriu-me o poema-paródia Amore co amore si paga, li e gostei e sabem de quem me lembrei? Do Adoniran Barbosa e daquela mistura de português com italiano. Aproveitei e li outros desse poeta  no google. Fica aí uma sugestão divertida e interessante. 
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Li on line, por sugestão da colega Luciana Porfírio, o livro Ditadura Militar e Democracia no Brasil: História, Imagem e Testemunho, organizado por Maria Paula Araújo, Isabel Pimentel da Silva e Desirree dos Reis Santos, um livro curto, com imagens e uma leitura que flui. Gostei porque trata do tema sem paixões e termos complicados, de maneira didática. Agora, alguns depoimentos de perseguidos, exilados e torturados são comoventes. Causou-me espécie este, em particular: "O Estado está agora diante de mim, se curvando e me tratando desse jeito, que coisa linda" No final, o Paulo Abrão (atual Presidente da Comissão de Anistia), de pé leu a sentença, (...) foi quando ele disse que o Estado Brasileiro me pedia perdão, foi quando eu desabei, eu me senti muito recompensada, foi uma coisa muito bonita, mesmo que a gente saiba que, claro, não apagou as coisas do passado, mas você sente que finalmente a cidadania chegou nesse país. ( ...) Foi um momento muito lindo de minha trajetória." (Dulce Pandolfi). Mexeu com você também? Caso se interesse mais pelo assunto, leia o livro.
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Peguei-me pensando sobre nossas dores, em especial aquelas que só quem sente pode avaliar: a perda, o esquecimento, o abandono, a indiferença, a solidão solitária e tantas outras. Não sei por que, mas veio a minha mente a história de Santa Rita de Cássia, mamãe só contava sobre o pedido que a santa fez em oração de ter um dos espinhos da coroa de Cristo para experimentar a dor que Jesus sentiu. Foi atendida, temos que tomar muito cuidado ao pedirmos algo, pode ser que recebamos.Daí surgiu a ideia de escrever o poema Espinho que você pode ler numa das postagens abaixo. Boa leitura!
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Há pouco tempo transcrevi e postei neste blog um poema da escritora cabo-verdiana Vera Duarte e, ganhei por estes dias um livro do escritor moçambicano Mia Couto, não o conhecia e estou muito interessado na leitura. Esse autor bebe em Guimarães Rosa, do qual é admirador, e lança mão de muitos neologismos e expressões poéticas e impactantes, por exemplo, fugir é morrer de um lugar, aborda a questão da bombas terrestres abandonadas e não desativadas depois das inúmeras revoluções e da luta pela independência de Portugal.
Por falar em África, não posso deixar de mencionar  Mandela. Que pessoa maravilhosa! Que coisa linda e emocionante o povo dançando nas ruas em sua homenagem! Um homem que ficou preso injustamente por 27 anos, sofrendo preconceito racial, sair da prisão e, sem ódio, construir a África do Sul de hoje, sem Aparthaid, esse é um líder que ombreia com Gandhi. Tivemos nossos heróis da Ditadura de 64, mas mancharam sua biografia, que pena! Papai dizia Comece e termine bem! Não nos cabe julgar e condenar e sim, esperar que a justiça se faça, sem as perseguições da nossa mídia vendida.
Divaguei, voltando, vale a pena ler Mia Couto.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

AMORE CO AMORE SI PAGA

 

 

             Xingue, xisgaste! Vigna afatigada i triste
I triste i afatigado io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno
I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m'amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna de féra
E io di féra tigna uma garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apiso nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbracio mi deu vucê,
Moltos abbracio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.


Espinho



Hoje crê no espinho da coroa de Cristo
transformado em chaga na testa de Santa Rita
Ontem sentia algo doer e não sabia o quê
Percebeu aos poucos  indiferença e abandono
virando ferida dentro do peito em seu coração

Pior que o enfrentamento a ausência
Pior que a ausência a presença ausente
Pior que a presença ausente a indiferença

A cara inexpressiva a pergunta sem resposta
O comentário monossilábico entrelábios
O agrado que desagrada contraria.

Rita viu sua chaga crescer malcheirar
a todos afastando e foi melhor se isolar
A flor em carne viva sumiu e saiu
algo por fazer
Voltou e a ferida também

Ele com seu espinho poucos afasta
e não pode se isolar
até isso lhe foi negado
A dor em carne viva nunca sumiu

Tem sempre algo a fazer
nunca  desacompanhado

Adalto Paceli