terça-feira, 30 de maio de 2017

 Linha Cruzada

      No meio da noite o telefone de minha casa, tocou, tocou muito, então acordei, calcei meus chinelos, desci as escadas e fui para o pequeno corredor entre a sala e a cozinha, onde fica o telefone. Não reconheci o número no visor, mas atendi mesmo assim.
      Foi muito estranho, eu conseguia escutar alguém na linha, na verdade, pareciam duas pessoas conversando, mas era impossível entender a conversa, pois as vozes pareciam distantes, como se estivessem bem longe do telefone. Curioso, porém assustado, desliguei o telefone e voltei para o quarto.
      Já estava no último degrau da escada quando o telefone toca novamente. Desta vez, era possível escutar e entender bem melhor a conversa. Percebi que se tratava de uma linha cruzada, pois os dois sujeitos não perceberam que alguém escutava em momento algum.
      Eram dois homens, um deles parecia mais velho que o outro. Por mais que eu estivesse com sono, continuei escutando os estranhos. Eles falavam sobre cordas, pregos, redes, martelos é mais uma série de outras ferramentas. Pareciam planejar algo importante, e estavam ansiosos, quando o mais novo falou:
      - Já conseguiu a arma?
      - A espingarda? Sim, sim. Tudo pronto, né?
      - Acho que sim, tudo pronto.
      - Estou indo, chego aí dentro de 15 minutos.
      - Estarei aguardando no local combinado.
      E desligou.
      Entrei em pânico. Alguma coisa iria acontecer dentro de 15 minutos e não parecia nada bom. Liguei para a polícia, ainda muito assustado. Contei tudo o que escutei e o número do telefone que estava na lista de últimas chamadas. A atendente disse que já estava mandando uma viatura para o endereço do telefone, disse para eu não me preocupar e desligou.
      Então, voltei para o meu quarto e tentei dormir, mas não consegui. Cerca de meia hora depois, escuto o telefone tocar novamente. Voei escada abaixo e atendi rapidamente. Era a atendente, a moça da polícia. Ela disse para eu não ficar tranquilo, pois foi tudo um mal entendido. Eram apenas avô e neto que planejavam acampar e caçar no fim de semana.
      Fui dormir aliviado, e prometi a mim mesmo que nunca mais escutaria conversas dos outros.


- Gabriela Cardoso Ribeiro, 8° ano B, n° 8, 14 anos.

domingo, 21 de maio de 2017

Passa ônibus em minha rua,

Pra muitos um tormento,
Pra mim, terno momento.
Vê-lo todo iluminado,
Enternece-me o coração.

Mamãe dizia que deitada,
Naquelas noites insones,
Nos momentos que nos consomem,
Nada a consolava mais
Que o latido de um cão.

Caminhando com as gentes,
Nos lugares de movimento,
Presto atenção nas palavras e risos
Dos que passam desatentos
E colho migalhas de atenção.

Não pense que tudo isso
Traz-me tristeza ou rancor,
Ao contrário, são sinais de vida
Vivida com muito amor.

Amor à vida, aos amigos,
Até por alguém desconhecido.
Por meus filhos e um livro,
Também a quem se foi.
E pelo meu bem,
Que nesta noite fria
É meu melhor cobertor!


                                                                Adalto Paceli

segunda-feira, 15 de maio de 2017

DELÍRIO
Quando dormimos o nosso espírito vela.
— Ésquilo
A noite quando durmo, esclarecendo 
As trevas do meu sono,
Uma etérea visão vem assentar-se
Junto ao meu leito aflito!
Anjo ou mulher? não sei. — Ah! se não fosse
Um qual véu transparente,
Como que a alma pura ali se pinta
Ao través do semblante,
Eu a crera mulher... — E tentas, louco,
Recordar o passado,
Transformando o prazer, que desfrutaste,
Em lentas agonias?!
Visão, fatal visão, por que derramas
Sobre o meu rosto pálido
A luz de um longo olhar, que amor exprime
E pede compaixão?
Por que teu coração exala uns fundos,
Magoados suspiros,
Que eu não escuto, mas que vejo e sinto
Nos teus lábios morrer?
Por que esse gesto e mórbida postura
De macerado espírito,
Que vive entre aflições, que já nem sabe
Desfrutar um prazer?
Tu falas! tu que dizes? este acento,
Esta voz melindrosa,
Noutros tempos ouvi, porém mais leda;
Era um hino d′amor.
A voz, que escuto, é magoada e triste,
— Harmonia celeste,
Que à noite vem nas asas do silêncio
Umedecer as faces
Do que enxerga outra vida além das nuvens.
Esta voz não é sua;
É acorde talvez d′harpa celeste,
Caído sobre a terra!
Balbucias uns sons, que eu mal percebo,
Doridos, compassados,
Fracos, mais fracos; — lágrimas despontam
Nos teus olhos brilhantes...
Choras! tu choras!... Para mim teus braços
Por força irresistível
Estendem-se, procuram-me; procuro-te
Em delírio afanoso.
Fatídico poder entre nós ambos
Ergueu alta barreira;
Ele te enlaça e prende... mal resistes...
Cedes enfim... acordo!
Acordo do meu sonho tormentoso,
E choro o meu sonhar!
E fecho os olhos, e de novo intento
O sonho reatar.
Embalde! porque a vida me tem preso;
E eu sou escravo seu!
Acordado ou dormindo, é triste a vida
Dês que o amor se perdeu.
Há contudo prazer em nos lembrarmos
Da passada ventura,
Como o que educa flores vicejantes
Em triste sepultura.
GONÇALVES DIAS
Este tem sido meu livro de cabeceira, tenho uma edição antiga que traz uma introdução de Mário da Silva Brito com o título "Informe sobre o homem e o poeta Gonçalves Dias". Fiquei impressionado com algumas passagens, por exemplo, o preconceito que sofre por ser mestiço, pois é filho bastardo de um português com uma mestiça, disso resulta sua grande desilusão amorosa. Apaixonado Por Ana Amélia que será sua musa inspiradora, pede-a em casamento, mas a mãe da menina recusa o pedido por meio de uma carta. Carta fatídica que o fará sofrer desse amor negado até sua morte num naufrágio perto de seu estado natal, o Maranhão, morre mais pelo seu grave estado de saúde que pelo afundamento do navio.
Desse livro tenho tirado algumas poesias aqui postadas. Espero que estejam gostando. Acima vai mais uma.
É isso!
Adalto Paceli

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Caminho

A poesia despertou-me
Aos gritos e ordenou
Levanta e escreve!
Mas estou tão cansado...
Retruquei, virando-me pro lado.

Então entrou em mim
Minha mente foi tomada
De cores, sons e fantasmas
Quis resistir, mas não pude.

Palavras gritavam e dançavam
Loucas para serem escritas
E não mais me contive.

Enquanto escrevia o que sei
Que não sei
E, que ler muitos não querem,

Lágrima e sorriso
No meu rosto se misturavam
Antítese de vida e morte
De riso e choro.

Naquele intrincado tecido
Que ora eu tecia
Vi desfilarem alegria de infâncias
Tristeza de despedidas.

Qual um náufrago
Que à tábua se agarra
À minha pena me agarrava
Com pena do me ofício
Tão falado e pouco lido.

Mas no turbilhão de emoções
Que no papel colocava
Sentia num e noutro verso
Que algo novo despertava.

Se quem leria... se lesse
Houvesse de também sentir
Isso não sabia dizer
Pois isso já é caminho
Que esses poucos
Terão de percorrer.

                Adalto Paceli


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Dica sobre resumo: Evite copiar trechos do texto original e juntá-los, pois esse mosaico pode ficar superficial, sem sentido e desinteressante. Isso não quer dizer que não você não possa copiar um ou outro trecho, nesse caso coloque entre aspas. 
Apresente o título, a fonte e o assunto no primeiro parágrafo, por exemplo: O texto tal, publicado na revista x retrata o assunto tal...
. Caso o texto a ser resumido traga falas de especialistas ou de pessoas envolvidas no assunto, recrie as citações. Veja: O psicólogo Roberto Farias alerta para o fato de muitas mulheres recorrerem a clínicas clandestinas por não terem condições financeiras...
. Resuma só o essencial, não copie diálogos, esses, geralmente, não cabem nesse gênero textual.
É permitido fazer comentários ou opinar? Depende do tipo de resumo solicitado. Caso seja um resumo em que não se explicite essa possibilidade, atenha-se ao que está escrito no texto original.
Devo fazer parágrafos? Sim, é imprescindível, pois o resumo é um novo texto e deve conter, portanto, a introdução, o desenvolvimento e o desfecho ou conclusão.
É isso.


Adalto Paceli
Belchior,
Eu sou também
 Um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco.
Sinto solidão na estrada
Quando as paralelas dos pneus
São duas estradas nuas
Em que fujo do meu eu.
Já gritei do apartamento
Mas só o eco respondeu.
Já beijei a menina
No escuro do cinema
Quando ninguém nos via,
Pois meu coração selvagem
Tinha pressa de viver!
Implorei que alguém vivesse comigo,
Mas... não quis correr perigo.
Enfim trago sua dor, pois percebo
Que apesar de ter feito
tudo que na vida a gente faz,
Ainda sou o mesmo e
Vivo como meus ancestrais.
Você, Belchior, mais do que ninguém,
Soube cantar o que sinto,
Coisas que estão no coração,
mas não sei como dizer.
Obrigado poeta!
Adalto Paceli.

sábado, 22 de abril de 2017

Perdi a esperança como uma carteira vazia...

Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)

Fernando Pessoa por Álvaro de Campos

sábado, 15 de abril de 2017

Dica para a escrita de redação do tipo narrativa, ou seja, aquela que conta uma história, que pode ser totalmente fictícia, baseada em fatos reais ou que conte uma história que realmente aconteceu.
Ao planejar seu texto, o que você decidiu quanto às personagens? E sobre o(a) narrador(a)?
Sim, é importante pensar nestes dois componentes essenciais de uma história.
Sua trama terá muitos ou poucos personagens? Você dará nome a eles? Seus personagens conversarão, ou seja, haverá diálogos? Muitas ou poucas falas? Cuidado para não exagerar ou criar diálogos dispensáveis ou superficiais demais.
Vai ter um narrador ou uma narradora? Caso afirmativo, esse alguém que irá contar a história não deve ser confundido com você, o escritor, pois ele(a) é uma criação sua, assim como as personagens.
Esse(a) narrador(a) pode ser de dois tipos e a este assunto chamamos de Foco Narrativo. Veja:
Pode ser alguém que além de contar, também participa da história como personagem, chamado de narrador-personagem.
E o outro tipo é aquele narrador que só conta a história, sem participar como personagem, sabe tudo sobre as personagens, antecipa acontecimentos e está em todos os lugares, a esse tipo de narrador(a) damos o nome de narrador-observador.
Enfim, não precisa fazer um super planejamento antes de escrever uma história, mas os aspectos acima darão, sem dúvida, qualidade a sua redação e para encerrar, improvisarei um começo de redação com os dois tipos de narrador.
"André não conseguia tirar Aline da cabeça, desde que a conhecera naquela festa, todos os dias ia até aquela casa na esperança de reencontrar a garota..." ( Narrador-observador )
"Eu não conseguia tirar Aline da cabeça, desde que a conheci naquela festa, todos os dia ia até aquela casa na esperança de reencontrá-la." ( Narrador-personagem )
É isso!
Até quando
Suportarei a solidão?
Penso-me forte,
Olho pros lados... Ninguém...
No rádio Raul Seixas,
Em inglês.
Parece que consola,
Mas quero
Toque, voz,
Aconchego e proteção.
Lágrimas,
Filme repetido,
Música na memória...
Só penso em Piaf.
Quero também dizer
Não me arrependo de nada
Que nada. Não quero Edith,
Não quero música no rádio,
Nem Internet, nem Face...
Quero um amor... Um amorzinho...
Tento me construir. Altos papos,
Sorriso largo, estrutura emocional,
Etecétera e tal...
Mas quá! As ameaças de amor
Não se concretizam.
O erro é meu? Fico a pensar...
Fui afoito? Devia mais esperar?
Ah! Esse amor não vem,
Estou assim... Assim...
Sem ninguém.
Onde andará este bem?
Adalto Paceli.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Convite
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
José Paulo Paes.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Resenha do livro ''A marca de uma lágrima''
Amor e ódio. Essas são as duas palavras que melhor definem o que senti ao ler o Livro ‘’A marca de uma lágrima’’. Mas até acho que elas combinam com o mesmo, pois são intensas como ele.
Pedro Bandeira é sensacional, nisso não há dúvidas. Mas acho que nessa obra, ao tentar representar como os adolescentes se sentem diante de certas situações da vida, ele exagerou um pouco na dose e criou personagens que, ao meu olhar não são tão encantadores quando olhados bem de perto. Isabel, uma garota bonita e inteligente, que ama escrever e que encanta a todos. Cristiano, um menino extremamente bonito, legal, que finge ser inteligente, mas na verdade nem é tão bom assim; é o grande amor de Isabel, do qual ela abre mão e entrega de bandeja para a melhor amiga, Rosana. Uma menina que pelo o que o livro diz, não passa de beleza exterior, não é inteligente, não é interessante e assim vai. E por fim, dentre as principais personagens, também temos o Fernando, um rapaz, bonito, inteligente, agradável e que faz de tudo para ver Isabel feliz. Fora estes ao longo da história alguns professores de Isabel e funcionários da escola onde ela estuda também tomam uma grande importância dentro da história, e também temos a presença dos pais de Isabel, que não dão a mínima para a filha.
Vou ser bem sincera, a única personagem que eu realmente gostei foi do Fernando, ele é mais como as pessoas que eu conheço, como os jovens, como eu. Isabel, que é a principal da história, não me conquistou de jeito nenhum. Ao ler o livro, eu ficava imaginando se aquela menina existisse de verdade e fosse alguém da minha turma ou do meu convívio. Se fosse, acho que toda a vez que ela ousasse começar a falar, eu inventaria alguma desculpa para não ficar perto. Sempre reclamando de tudo, levando tudo ao extremo, agindo como se fosse uma adulta e se sentindo superior. O insucesso de um amor, já era motivo para ela achar que sua vida havia acabada. Peguei-me mais de uma vez, sentindo vontade de invadir os pensamentos daquela personagem e lhe dizer que havia muita coisa além do garoto bonitinha da escola, o que uma menina tão madura como ela já deveria saber. As suas lamentações e autocríticas ao longo de todo o livro tornam a leitura cansativa.
Mas entre tantas críticas, também não posso deixar de dizer que grande parte da obra é muito boa. O interessante é que, não é um livro tão simples de ser lido; exige atenção e dedicação do leitor; faz com que quem está lendo faça várias suposições do que virá a acontecer e estimula um lado detetive no leitor. O livro é conduzido muito bem até o final, com frases bonitas, trazendo palavras não tão comuns nos livros infanto-juvenis, recheando assim, o nosso vocabulário de novas palavras. E ainda aborda temas como a bulimia, anorexia e mostra a importância que os pais têm na vida dos filhos e como a ausência deles é ruim.
Mas apesar das críticas, eu recomendo que quem se interessar pelo livro, que leia, pois para cada um ele vai ter um significado diferente. Não é um tipo de livro que me agrada, por ser muito melancólico, mas não deixa de ser uma bela obra.
- Amanda Morais/ 8°A - 2013
As preposições, assim como os advérbios são palavras ou expressões invariáveis, ou seja, não há masculino, feminino, singular ou plural, são escritas sempre da mesma forma.
Muitos fazem confusão com casos, como no seguinte exemplo:
Ontem fui AO clube ( consideram AO como preposição, porém aqui temos uma contração da preposição A + o artigo O). Para distinguir essa contração quando temos um adjunto adverbial de lugar no feminino, aí entra o sinal grave ou comumente chamado de crase (`), veja: Ontem fui À praia = ( Preposição A+A artigo = À ).
É isso.
Adalto Paceli

terça-feira, 11 de abril de 2017

Quando nos referimos às classes de palavras ou classes gramaticais estamos falando dos substantivos, adjetivos, verbos, pronomes, advérbios, artigos, numerais, das conjunções, interjeições e preposições. É importante saber nomeá-las? Sim, não é imprescindível, mas facilita estudos futuros que dependem desse conhecimento.
Por que não é bom estudarmos essas palavras isoladamente, fora de um contexto? Porque uma mesma palavra pode pertencer a mais de uma classe de palavras, variará conforme o seu uso.
Veja este exemplo com a palavra A:
1. Encontre A menina chorando. ( artigo definido )
2. Fui A São Paulo ontem. ( preposição )
3. _ Você tem visto aquela menina?
_ Sim, ontem eu A vi no shopping. ( pronome )
É isso!
Adalto Paceli

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Viver a vida

Deixei-te, poesia.
Ando prático,
Pago contas,
Faço cálculos.

Leio textos científicos,
Classificados de jornal.
Faço palavras cruzadas
E discuto futebol.

Preciso estar atento
Ao preço do etanol,
Conferir extratos do banco,
Agora sou um cara normal.

Compro roupas no shopping,
Vejo a novela das nove.
Leio as embalagens dos alimentos,
Acho melhor comida natural.

Não sei...

Parece que você, poesia,
Aliena, fico meio boboca,
Por demais, sentimental.

Rimas versos palavras.
O que são? Letras, saudade,
Tremenda solidão.
Preciso viver a vida,
Ficar pensando nela não.

Pensar e refletir é difícil!

Quero só os compromissos
Que me deixam ir vivendo,
Assim nem vou vendo
O tempo que vai passando.

Adalto Paceli

domingo, 9 de abril de 2017

"Tenho amigos para saber quem eu sou,
pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."


Fernando Pessoa

sábado, 8 de abril de 2017

Linguagem coloquial e culta na escrita: Quando escrevemos de uma forma próxima ao jeito que falamos temos a linguagem coloquial. Está errado? Claro que não! No entanto, nas avaliações de redações pede-se que se aproxime o máximo possível da língua culta, em especial as do tipo dissertativo-argumentativas. Vou tentar dar um exemplo prático, improvisando um trecho, ok?
Alguém apaixonado, pensando na pessoa amada diz para si:
"Que vontade de ter ela nos meus braços agora!"
O que você acha, usei uma linguagem coloquial ou culta?
Caso tenha respondido que usei a linguagem coloquial, acertou.
Vamos analisar: ao usar o verbo TER no infinitivo e o pronome ELA no caso reto, optei pelo jeito que a gente fala no dia a dia, concorda?
Vejamos como ficaria na norma culta:
"Que vontade de tê-la em meus braços agora!" Percebeu?
O verbo TER ficou sem o R e acentuei, pois é monossílabo tônico terminado em E, usei o hífen (-) e substituí o pronome ELA pelo pronome LA, que é oblíquo.
É isso!

Adalto Paceli

segunda-feira, 3 de abril de 2017



Dica para interpretar uma reportagem: A reportagem é um gênero que pertence ao texto informativo. Tem como base um tema ou assunto e, além de apresentar esse tema, acrescenta nos parágrafos seguintes percentuais de pesquisa com a respectiva conclusão; fala de especialistas na área e pretende manter certa imparcialidade do repórter ou jornalista responsável pela reportagem, mas a escolha deste ou daquele especialista, a ênfase em determinados resultados de pesquisa em detrimento de outros, revelam, com perspicácia, a posição do órgão informativo.
Isso posto, vamos tentar dar algumas dicas para uma boa interpretação de uma reportagem, pois em muitos tipos de avaliação, a exemplo de concursos, Enem, vestibular, dentre outros, tem aparecido a reportagem a ser lida e servir de base para uma série de questões.
O primeiro passo é ler atentamente o texto em questão e só partir para as perguntas depois de tê-lo entendido minimamente. Fez uma primeira leitura e ficou na dúvida? Leia de novo.
Grande parte das questões de interpretação de uma reportagem segue a linha da competência e habilidade, a saber:
. As informações estão explícitas no texto. Veja: Perguntam sobre a afirmação de um especialista e oferecem quatro ou cinco alternativas para você assinalar ( ABCDE ). Como proceder para localizar isso na reportagem? Localizar o parágrafo em que há a fala, que vem normalmente entre aspas e ler um pouco acima e um pouco abaixo dela. A informação está lá, é só localizá-la.
. As informações estão implícitas. Nesse caso, você terá que deduzir, ou seja, ver nas entrelinhas. Exemplo: Divulgam um índice alto de rejeição a um determinado assunto polêmico e perguntam se as pessoas concordam ou discordam, aí você deduz. Claro que esse é um exemplo simplista, é só pra você ter uma ideia.
Enfim, a interpretação de um texto-reportagem que, além de ser informativo, pode ter uma certa dose de dissertação, requer de você olhos e mente bem atentos para uma leitura autônoma, sem se deixar levar pelas informações aparentes e um bom conhecimento de mundo, por isso, mantenha-se sempre bem informado.
É isso!

quinta-feira, 30 de março de 2017

Ah, Minas Gerais!
Era Julho de 37, era roça e era vila,
um vendeiro, uma rezadeira,
nasce outra Maria.
Chão de Minas, tempo antigo,
gente que ama, gente rude,
povo calado e sofrido!
Ah, Minas Gerais,
quantas Marias iguais!
Corre, dança nos bailes,
estuda, vai nas tias,
repisa o chão de Minas
Sofre vendo a mãe
na lama recolher
a massa de bolo
que o pai derrubou por querer.
Ah, Minas Gerais,
Quantas Marias iguais!
Falar da vida
é dizer
que ela passa,
a moça se casa.
Filhos, rotina... alguma alegria,
liberdade por conquistar.
O primeiro foi seu pai.
O segundo, beberrão,
o terceiro, um tipo mandão.
O tempo se esvai.
Ah, Minas Gerais,
quantas Marias iguais!
Nas ruas a pisar e repisar,
todos se foram,
segue sozinha a vagar.
Marido já não tem,
filhos a Minas não vêm.
Sente a velhice chegar.
A velha casa vende,
um filho pra longe,
Maria vai levar.
Nas contas do rosário desfia
cinco invernos bem rezados
nas terras de São Paulo.
Num junho, treze era o dia,
sua conta derradeira
a mineira acaba de rezar.
Ah, Minas não mais,
outra Maria se vai!
Adalto Paceli
A última visita

     Estava melhor, tão melhor que telefonou a ele, pedindo que fosse vê-la. Lutando contra a doença, ela dizia que teria alta em breve, queria marcar uma viagem, repetir, tanto tempo depois, o roteiro que haviam feito com o deslumbramento do amor recente: Roma, Florença, Veneza, Verona, Milão, Paris e Lisboa.
     Muitas águas e luas haviam passado, fizeram outras viagens, separaram-se, ela adoecera e agora queria reviver aquelas cidades nos mesmos hotéis, freqüentando os mesmo restaurantes, a Taberna Ulpia, em Roma, ela nem sabia que a taberna fora fechada pela polícia, ali se consumia cocaína. Inocentemente eles fora lá, tão atentos em si mesmos que nem repararam, dançaram o samba do Orfeu na pista, os outros perceberam que dançavam bem, deixaram a pista livre, depois aplaudiram.
     Tudo ficara para trás, nem lembranças boas eram, a realidade apagara uma parte, destacara outra e ela ficara doente e agora exigia que fosse vê-la, já fizera as reservas na mesma agência, mandara a irmã pagar a entrada, depois discutiriam o resto.
     Ele foi. Achou a magnífica, como nos melhores tempos. A lucidez formidável dos que dizem adeus. Ficou surpreso, não sabia dos planos dela, como dizer que tudo aquilo seria impossível?
     Nisso, entrou a enfermeira no quarto. Só então ele reparou que, na banqueta da parede maior, havia vidrinhos de remédio, uma mini- farmácia para as emergências. A enfermeira percebeu que ele se assustou e olhou-o de tal forma que ele compreendeu.
     Então, disse que sim, toparia aquilo tudo, a viagem, o roteiro, a vida. Vida que ela insistia em viver.

Dois dias depois, ele remexia em velhos papéis, recordações de Veneza, Florença e Verona, as duas entradas para os Uffizi, a conta do Dodici Apostoli, de Verona, o perfumado “risotto al funghi del Bosco”. O telefone toca. A irmã avisou: tudo acabara para ela. Só não sabia que acabara também para ele.


Carlos Heitor Cony